
Noivas de todo o país oferecem vestidos de casamento à "santa" Maria Adelaide que continua, ao fim de quase 100 anos, a atrair a Arcozelo milhares de devotos.
Não fosse o caso de ser o Museu de "santa" Maria Adelaide, em Arcozelo, em Vila Nova de Gaia, e bem poderia passar por uma loja de vestidos de noiva. O mostruário, em vidro, ocupa duas paredes do espaço. Lá dentro, estão expostos vestidos brancos, de cetim, com rendas, com apliques. De todos os tamanhos, uns mais simples, outros menos. Ao todo, e contando com os que estão armazenados, são cerca de seis mil. Foram oferecidos por mulheres recém-casadas, ao longo de décadas, à "santinha" de Arcozelo, em nome de um pedido satisfeito ou de uma prece por um final feliz.
Tão grande é o número de vestidos que recebe, e tão pouco espaço tem para os guardar, que é de bom grado que os empresta por um período máximo de 90 dias, mediante uma caução de 50 euros que é devolvida no retorno.
D. Maria Adelaide de Sam José e Sousa nasceu na cidade do Porto no ano de 1835.
Mudou-se para Arcozelo após ter adoecido no convento Corpus Christi de Vila Nova de Gaia por necessitar de estra numa zona marítima com pinheiros e eucaliptos.
Fazia renda e pastéis. Com essas rendas que vendia, mais com os pastéis, auxiliava muita gente pobre de Arcozelo. Gostava de crianças, dava-lhes diariamente pão, doces, roupas, catequizava-as. Estava sempre pronta a reconciliar lares desavindos.
Mas o mal que a havia levado para ali agravou-se devido a uma forte constipação. Morreu a quatro de Setembro de 1885.
A 23 de Fevereiro de 1916, o caixão foi retirado e aberto. O corpo estava intacto, assim como as roupas e exalava um forte cheiro a rosas. O corpo foi coberto com carboneto em pedra e regado com ácido nítrico ou água-forte e enterrado numa vala comum. Apesar do pedido de discrição acerca do que tinham visto, alguns rapazes que ajudaram comentaram o caso. Quatro dias depois, a população de Arcozelo e freguesias vizinhas uniu-se para desenterrar a "Santa".
O seu corpo continuava incorrupto. O local foi evacuado. A santa foi lavada, vestiram-lhe roupas novas e colocaram-na numa urna. Foi exposta e de forma ordenada todos viram os seus restos mortais. Deitaram-lhe cal em pó, a urna foi fechada.
Decorreram cinco anos quando foi feita a transladação para a nova capela. A urna foi novamente aberta e o corpo, um tanto queimado pelos produtos que lhe juntaram, continuava intacto e a exalar um acentuado aroma de rosas. D. Maria Adelaide podia ser exposta a público.
A 17 de Maio de 1924, um sábado ao fim da tarde, o corpo de D. Maria Adelaide foi transladado para a nova capela. Para o povo houve duas coisas que a tornaram santa. Diz Augusto Gomes dos Santos que «consideraram isso pela sua bondade e pelo corpo aparecer intacto».
Depois de vários atentados e roubos, em 25 de Maio de 1983 um homem entrou levando na mão um ramo de flores «e uma saca. Só junto ao túmulo tirou da saca uma marreta com a qual tentou desfazer a santinha». Hoje, com aspecto disforme, numa capela riquíssima, a Santa Maria Adelaide está exposta.
Apesar da Igreja Católica não a reconhecer como "Santa", a Santinha de Arcozelo recebe milhares de pessoas de todos o cantos do país e não só...